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domingo, 1 de novembro de 2009

Mágicos: Ben Vautier


Ícones: Congo

Espírito da floresta, Mahongwe ou Ngare, República do Congo, séc. XIX-XX, col. Barbier-Mueller, Genebra. Os povos da África central viviam num mundo hostil de florestas impenetráveis; os rituais refundadores integravam por isso muitos espíritos da floresta, por vezes confundidos com antepassados, para apaziguá-los ou invocar a sua proteção.



Picasso, Cabeça de Mulher Adormecida, 1907, col. MOMA, NY.

domingo, 25 de outubro de 2009

Ícones: Gana


Akuaba, Ashanti, Gana, séc. XIX-XX, Museu Britânico. A akuaba materializa a ideia de um nascimento perfeito; era transportada às costas e cuidada diariamente, como uma verdadeira criança, pela mulher que desejava engravidar, e, até ao fim da gestação, para assegurar que a criança nasceria bela e saudável.


Paul Klee, Senecio ("Cabeça de Homem à beira da Senilidade"), 1922, col. Kunstmuseum, Basileia. "A arte é génese, parábola da criação...é preciso não pensar na forma mas na formação...não abandonar o fio vermelho da criação....levar uma linha a passear...Permaneço neste mundo só em memória."(Klee)

para reacertar o ritmo: Eclesiastes

Os olhos não se cansam de ver nem os ouvidos de ouvir. O que foi é o que há de ser; e o que se fez, assim se fará; de modo que nada há de novo debaixo do Sol...E olhei para todas as obras que fizeram as minhas mãos...e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito e que proveito nenhum havia debaixo do Sol...Todos foram feitos do pó e todos voltarão ao pó. Quem sabe que o fôlego do homem vai para cima e que o fôlego dos animais vai para debaixo da terra?... Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio...Afasta pois a ira do teu coração... Lembra-te do teu Criador nos dias da tua juventude...Antes que escureçam o Sol, e a lua, e a luz, e as estrelas, e tornem a vir as nuvens depois da chuva... no dia em que se calem as moedoras, por já serem poucas, e se escureçam os que olham pela janela; e as portas da rua se fechem por causa do baixo ruído da moedura, e se levante o homem à voz das aves, e todas as vozes do canto se calem; como também quando temerem o que é alto, e houver espantos no caminho, e florescer a amendoeira, e o gafanhoto for um peso, e perecer o apetite...antes que se quebre a cadeia de prata, e se despedace o copo de ouro, e se despedace o cântaro junto à fonte, e se despedace a roda junto ao poço; e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus. 

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Portugal, Cem Limites: Gil Vicente, 1506

 
A Custódia de Belém com o ouro de Quiloa, ou o espírito da travessia do mau tempo. Nos limites do que se olha  e não vê está o discípulo amado, mesmo junto ao Corpo de Cristo.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Ícones: Mali

Máscara koré dugaw, Bamana, Mali, séc. XIX-XX, col. Barbier-Mueller. Koré é o mais alto nível de iniciação dos Bamana, o que permite o conhecimento do Criador e acesso à imortalidade no ciclo da reencarnação. A sociedade Koré divide-se ainda em oito graus de iniciação: os dugaw representavam o 4.º grau, a expansão da consciência pela anulação da humanidade e das convenções - percorriam as aldeias em euforia, parodiando todas as restrições sociais, comendo tudo o que encontrassem, incluindo excrementos, porque o sagrado manifesta-se e pode ser compreendido em todos os elementos e em todas as dimensões da realidade.

Amadeo de Souza-Cardoso, Cabeça, 1913-15, col. Museu do Chiado.

Ícones: Tanzânia

Midimu, Maconde, Tanzânia, recolhida em 1906, col. Barbier Mueller, Genebra. Espírito de antepassado (midimu), estas máscaras surgiam no final do perído de iniciação de rapazes e raparigas para lembrar a sucessão de vidas e o papel que assumiam no grupo.


Amadeo de Souza-Cardoso, Máscara do Olho Verde, 1912-15, col. Sousa Cardoso.

sábado, 17 de outubro de 2009

Ícones: R.D. Congo

Mbangu, Pende, Zaire, séc. XIX-XX, col. Musée Royal de l'Afrique Centrale, Tervuren. Pertence à categoria de máscaras que personificam ideias de desordem e desequilíbrio, possivelmente alguém que foi vítima de um feitiço.


Guilherme de Santa Rita (Santa Rita Pintor), Cabeça Cubo-futurista, 1912, col. Museu do Chiado.

Guilherme de Santa Rita (1889-1918). Fundador da arte moderna em Portugal, pioneiro do Futurismo, juntamente com Amadeo Souza-Cardoso foi promessa de recuperação do atraso que se abateu sobre a arte nacional durante o séc. XIX. Esteve em Paris, em 1912, como bolseiro, mas perderia a bolsa por ideias monárquicas e más relações com o Embaixador. A sua última vontade foi que destruíssem todo o seu trabalho, pelo que restam apenas esta Cabeça - magnífica como um arquétipo primordial - e uma obra abstrata. Morreu em Portugal, em 1918, mesmo ano da morte de Amadeo.

Mágicos: Paul Klee


Paul Klee (1879-1940), Som Antigo, 1925. Col. Kunstmuseum, Basileia. "A arte não reproduz o que vemos."

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Ícones: Gabão



Cimeira de relicário, Mahongwe, Gabão, séc. XIX, col. Museu Barbier Mueller, Genebra. Provavelmente a mais poderosa representação plástica do espírito humano imortal, entre todas as civilizações. É também uma metáfora eficaz da separação dos dois mundos: para o espírito resta o sentido da visão; a boca e os ouvidos desapareceram, a comunicação tornou-se impossível.

Giacometti, Homem e Mulher, 1928, col. Centro Pompidou, Paris.

 Cimeira de relicário, Kota, Gabão, séc. XIX, ex-col. Robert and Andrea Bollt, v. (c) Sotheby's. Representação desincarnada de antepassado, destinada a mediar entre os vivos e o mundo dos espíritos, era colocada sobre um cesto ou pilha de ossos. O controlo do relicário legitimava também a autoridade do iniciado, chefe do clã ou da família, que podia invocar o poder dos espíritos aqui contidos.
 
Picasso, Cabeça de Mulher, 1931, Museu Picasso.
 
Cimeira de relicário (Mbulu Ngulu or Mbulu Viti), Kota, Gabão, séc. XIX, col. The Nelson-Atkins Museum of Art, Missouri.

Max Ernst, Junger Mann mit klopfendem Herzen, 1944, col. Würth.

domingo, 11 de outubro de 2009

Mágicos: HR Giger

The Birth Machine, 1967

para reacertar o ritmo

depois de suportarmos hoje, muitos, os dedos de poucos nos olhos e noutros órgãos de ver..

A memória e a fantasia, que constrói a representação do futuro, alteram os fenómenos a que se ligam. O presente não altera: se à representação de um homem junto o "agora", o homem não ganha por isso nenhuma nova nota. Os predicados modificadores do tempo são irreais e pertencem a uma série contínua com uma única determinação real, a que se agregam, em diferenças infinitesimais. (Brentano)

O mais estranho é o carácter de necessidade da imagem e da metáfora. As coisas vêem por si até nós, desejosas de converter-se em símbolos: querem voar. E através de cada símbolo voas tu para cada verdade. Eis que abrem para ti todos os sentidos da palavra; e todo o ser se converte em palavra e tudo quanto existe quer através de ti alcançar o segredo da palavra. (Nietzsche)

A vida da consciência está num fluxo constante, em que todo o novo reage sobre o antigo, que aponta novamente para o novo, o qual modifica as possibilidades reprodutivas do antigo. (Husserl)

Porque aquilo que em vós existe de infinito habita o castelo celeste, cuja porta é a bruma da manhã, cujas janelas são as canções e os silêncios da noite; tem consciência da eternidade da vida; sabe que o presente é só memória do dia de ontem e que o amanhã é sonho do presente. Aquilo que em vós canta e em vós contempla mora ainda nos limites do primeiro momento que semeou as estrelas no espaço. (Khalil Gibran)

O que se pode amar no homem é que ele é uma passagem e uma queda. (Nietzsche)

Liberdade - para caminhar livre e não conhecer superior. E a tua própria carne será um grande poema. (Whitman)

Ícones: Angola

Máscara Cihongo, Chokwe, Angola, séc. XX. Invocação do espírito do poder, virilidade e fortuna, esta máscara era dançada apenas pelo chefe, pelos seus sobrinhos ou filhos que saíam em verdadeiras campanhas para cobrança de impostos. Um engenhoso esquema de tributação voluntária, apoiado no poder da máscara para trazer prosperidade às aldeias que visitava.


James Cameron para Aliens. O desenho da Rainha é inspirado no originial de HR Giger, de 1979, criado para o Alien de Ridley Scott.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Ícones: Angola

Hamba, Chokwe, Angola, séc. XIX, col. Sidney e Berenice Clyman. Hamba (pl. mahamba) é um espírito da natureza ou de antepassado, mediador entre os homens e o Criador. Um hamba que se manifestasse por possessão de um ser humano poderia ser capturado através de um ritual de cura, numa escultura concebida para esse efeito, tornando-se uma força protetora. Os chefes mantinham um santuário de mahamba que zelavam pela sua autoridade e pelo bem-estar da aldeia. Dependendo dos recursos técnicos do escultor, as obras criadas para morada dos espíritos poderiam ilustrar valores ideais dos Chokwe, por vezes personificados nos atributos do fundador da tribo, Chibinda Ilunga, o grande caçador mítico, guerreiro e herói civilizador.

Cândido Portinari, O Lavrador de Café, 1939, col. Museu de Arte de São Paulo. O movimento neorrealista também faria a apologia da força e carácter de camponeses e operários, atributos para novos heróis civilizadores.

Júlio Pomar, O Gadanheiro, 1945, col. Museu do Chiado.

domingo, 4 de outubro de 2009

Ícones: Angola

Bastão de Chefe, Chokwe, Angola, séc. XIX.
 
Naum (Pevsner) Gabo, Konstruktiver Kopf Nr. 3 (detalhe), 1917, col. Museum of Modern Art, Nova Iorque.
 

Anton Pevsner, "Máscara", 1923, col. Centro Pompidou.

Portugal, Cem Limites: Mateus Fernandes, 1498


Entre todas as obras do manuelino em Portugal, a fonte no Museu Nacional de Arte Antiga é talvez a mais poderosa. Representa o rei D. Manuel I e a rainha D. Leonor, sua irmã, viúva do rei D. João II, com as divisas dos dois: a armilar (spera mundo) e o camaroeiro.

O título na esfera, EMPRP, diz-nos que a obra é talvez datável ente 1495 e 1499, ano em que o título régio ganha a extensão de d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. 

A representação conjunta da rainha consorte viúva com o irmão soberano é mais provável tratando-se de encomenda da própria D. Leonor, possivelmente durante o tempo em que esteve regente de Portugal por ocasião de uma longa viagem de D. Manuel I a Castela e Aragão, em 1498. Sendo uma encomenda de D. Leonor, é provavelmente trabalho do seu arquiteto e mestre pedreiro favorito, que trabalhou na sua capela e hospital termal nas Caldas da Rainha, que já era arquiteto de D. João II e foi um dos criadores das capelas imperfeitas do Mosteiro da Batalha: Mestre Mateus Fernandes, o Velho (m. 1515).

Quanto à iconografia, aborda os princípios opostos das mais antigas tradições orientais e ocidentais, que falam de uma síntese necessária para que o Homem possa alcançar a união com o mundo divino: Alma e Espírito, Vida e Vontade, para despertar Kundalini, a energia cósmica do Absoluto contida em cada ser e representada pela serpente em espiral ou dupla hélice. Ou também: compaixão e liberdade, contemplar a impermanência e agir com equanimidade.

Sendo criada nesse ano extraordinário de 1498, é provável que invoque também o mais ousado programa de política externa de Portugal, inciado por D. João II e continuado por D. Manuel: a união do Ocidente e do Oriente numa aliança com o Reino do Preste João (Abissínia) para controlar o mar. E ainda o mais fantástico programa metafísico de sempre: a reunião do Cristianismo ocidental com a Tradição oriental de onde nasceu.

É também uma serpente, que engole a própria cauda (o ouroboros), o símbolo da eternidade. Cada símbolo está grávido de outro símbolo.

Ícones: Costa do Marfim

Mblo, Baulé, Costa do Marfim, séc. XIX-XX, col. Brooklyn Museum. Retratos idealizados e não associados a rituais específicos, estas máscaras representavam a melhor oportunidade para a expressão estética livre. Os Baulé acreditavam que as mblo existiam desde sempre, tendo emergido da terra ou descido do céu junto com os antepassados fundadores.

Modigliani, 1910-12, col. Hirshhorn Museum and Sculpture Garden, Smithsonion Institution, Washington.

Modigliani, "O Busto Vermelho", 1913, col. privada.

Ícones: Angola

Mwana Pwo (filha e mulher), Chokwe, Angola, séc. XIX-XX. Máscara utilizada em rituais de iniciação masculina (mukanda), concebida e dançada por homens iniciados, mas que personificava ideais de beleza, graça e autoridade femininas numa sociedade matrilinear. Os atributos são complexos: as lágrimas, por exemplo, invocam ao mesmo tempo a dor da passagem dos filhos à idade adulta e da separação do mundo, porque a mwana pwo pode representar também o potencial não realizado de uma mulher que morreu jovem.

Modigliani, Jeanne Hébuterne (1898-1920), 1917. Col. privada.

Calvin Klein, com Christy Turlington, campanha iniciada em 1989.

sábado, 3 de outubro de 2009

Ícones: Guiné-Bissau

Baloba (casa dos Irans), Bijagó, c. 1930, Ilha Uno, Guiné-Bissau. Publ.: Bernatzik, Im Reich der Bidjogo, 1944. Os pictogramas descrevem a normalidade da vida na aldeia; no centro vê-se uma representação do nascimento e da morte, com uma figura que procura acorrer aos dois tempos. São utilizadas três cores apenas, como em toda a arte Bijagó: vermelho, branco e negro.


A.R. Penck, DIS, 1982, col. Museum Küppersmühle, Duisburg. Penck é um dos fundadores do neo-expressionismo. Utiliza um código pictográfico simplificado, espécie de Língua subjectiva que tem vindo a reescrever continuamente no que parece a busca de uma clara e derradeira expressão emocional.

Ícones: Guiné-Bissau

Iran Grande, Bijagó, Guiné-Bissau, recolhido na Ilha Caravela em 1853 por expedição francesa. Col. Museu Quai Branly, Paris. Receptáculo de espíritos (orebuko) atraídos por libações, o Iran serve como canal de comunicação entre os homens e o Criador. Cada família tem um Iran e a aldeia (tabanka) mantém um altar (baloba) com várias gerações de Irans, operado por um especialista (balobeiro).


Ferand Léger, Mulher com Gato, 1921, col. Metropolitan Museum, Nova Iorque.

Ícones: Gabão

Ngil, Fang, Gabão, séc. XIX, (ex) col. Verité, Paris. Os Ngil eram sociedades secretas masculinas responsáveis por manter a ordem e implementar a justiça nos clãs Fang. As máscaras saíam à noite, à luz de archotes, em perseguição de criminosos e feiticeiros. O seu uso foi banido pela administração colonial francesa em 1910; as últimas sociedades extinguiram-se c. 1930 por ação dos missionários católicos que destruíram também quase toda a arte.






















Pablo Picasso, "Les Demoiselles d'Avignon", 1907, col. Museum of Modern Art, Nova Iorque. Considerada a obra seminal do cubismo e da arte moderna ocidental (representa prostitutas de um bordel de Barcelona, na rua Avinyo). 

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Mágicos: Cruzeiro Seixas

Cruzeiro Seixas, Outra espécie de Melancolia, 1952.

...Das partes negras, da queimadura na boca, os intestinos onde brilha o alimento...Vêm os animais, alvorecendo, os cornos a rasgarem a cabeça: outra espécie de luxo, de melancolia. E o corpo é uma harpa de repente... (de poema dedicado a Cruzeiro Seixas)
Na memória mais antiga, a direção da morte é a mesma do amor.
Herberto Hélder

Portugal, Cem Limites: Nuno Gonçalves, 1445

e os painéis de S. Vicente, que anunciam o Renascimento e a modernidade com um retrato sem igual de homens habitados de mistérios e de dúvida, do espírito do tempo livre que haveria de situar o indivíduo no centro de toda a liberdade e refundar regimes políticos, económicos e sociais na Europa.

E sobretudo o magnífico enigma que aí deixou, desde o primeiro símbolo da cosmogonia ao Cristianismo e ao futuro, num bailado iconográfico que resume a memória mítica da Humanidade.

Aqui sincretizou as trindades de Pai, Mãe e Filho com Pai, Filho e Espírito Santo; reuniu Alma e Espírito no Cristo, no Homem e no corpo do Príncipe D. Afonso V; fez imagens para a trindade do Tempo de Joaquim de Flora em forma de Baal Janus trifrontre que coloca a sua ilusão a Ocidente e a verdade a Oriente, pedindo a transmutação do passado no futuro. No centro da idade do Filho colocou a Vontade para criar a idade terceira: a do Espírito Santo.

Neste espelho de trindades simétricas tudo se harmoniza para criar a grande obra do Ocidente: convivem Mazda, Mitra, Cronos, Pitágoras, Platão, Euclides, São Miguel, Cristo, o Crisol e o Ouro, o Ein Soph e as Sefirotes... estão mais de 5.000 anos de pensamento mítico e discurso metafísico.

Nada há igual na arte ocidental. É o mais sofisticado voto simbólico alguma vez realizado pela imersão de um país no Espírito Santo, pela missão de conduzir a nação e o mundo à luz da compaixão cristã, à liberdade do pluralismo e à justiça da igualdade idealizada por Joaquim de Flora.

Desde a cruz e dos castelos fundadores de Borgonha, aos refundadores de Avis, o sonho do sapateiro de Trancoso e a viagem magnífica do mestre dos Lusíadas, o Padre António Vieira, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, Almada Negreiros... todos aqui se reúnem também e viverão ainda, na perfeição inacabada do começo.

Mas na cronologia da História, aqui está também D. Pedro, o servidor, regente de Portugal escolhido pelas Cortes de Lisboa; e o seu irmão, o Infante D. João, Grão-Mestre da Ordem de Santiago, o cavaleiro que empunha a espada como marco e como cruz.

Na posição desta espada, fosse também pelo génio do pintor ou coincidência, mostra-se o futuro: foi pela cruz e não pela espada que os Infantes D. João e D. Pedro quiseram liderar Portugal. Opunham-se às conquistas de terra em África a favor do tempo da exploração e aliança e esta seria talvez a divergência maior entre D. Pedro e a nobreza que apoiava o seu irmão D. Afonso. Foi a causa da morte de D. Fernando, em Fez, pela futilidade da conquista. E viria a ser a causa da morte de D. Pedro, às mãos do seu irmão, e da perda de muitas outras vidas de homens e mulheres que teremos de lamentar até ao fim do tempo, tal como uma boa consciência perdida é irrecuperável.

Mas os portugueses não estavam ainda à altura da verdade joaquimita.

Portugal, Cem Limites: Os Surrealistas, 1949

Mário Cesariny, Naniora (a Poesia), c. 1950

Entre nós Os Surrealistas devolveram-nos a coragem da liberdade, celebraram a grande arte antiga portuguesa e prestaram homenagem à arte africana. É para eles, por isso, o primeiro destes cem limites da criação de Portugal.

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte   violar-nos   tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Mário Cesariny  (1923-2006)

que o amor se conta em anos de morte
e sabe que há um sinal
que marca a ruína infalível para a qual escorregamos
a sonhar o enigma das torres que emigram
presas a fios de aço
e que partem com o pensamento
em todas as direcções.
Henrique Risques Pereira (1930-2003)

que palavra é a hora
que hora é o pão tenro e quente!
Fernando Alves dos Santos (1928-1992)

Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores.
Mário Henrique Leiria (1923-1980)

Meu lamento não é raiva nem certeza. Espreitei na fechadura dos horizontes e o que eu julgava ser vácuo e raiva emplumada mostrou-se-me coalhado de cogumelos e de lagartas.
Pedro Oom (1926-1974)

Carlos Eurico da Costa, Cavaleiro de Palaguin, c. 1950

Na cidade de Palaguin o dinheiro era olhos de crianças... Havia janelas nunca abertas e altas prisões descomunais sem portas...Havia um corpo de bombeiros que lançava gasolina nas chamas...Havia pobres que aceitavam como esmola sacos de ouro de 302 quilos.
Carlos Eurico da Costa (1928-1998)

Quero olhar o dia a dia nos olhos, insatisfeito, como se olham os amantes. Na verdade todas as coisas têm asas, e sexo...Os que querem agarrar com ambas as mãos o impossível não se apercebem que o impossível acontece todos os dias...E aqui, onde nascemos, é precisamente o local onde o mar se afogou. Mas será por acaso que dois dos quadros mais importantes do imaginário e do mistério estão em Portugal?...
Cruzeiro Seixas (n. 1920)

A construção dos poemas
é como matar muitas pulgas com unhas de ouro azul
é como amar formigas
brancas obsessivamente junto ao peito
olhar uma paisagem em frente e ver um abismo
ver o abismo e sentir uma pedrada nas costas.

António Maria Lisboa (1928-193), para o Artur do Cruzeiro Seixas

Ícones: Costa do Marfim


Enxota-Moscas, Baule, Costa do Marfim, ca. 1920.


Edifício Chrysler, William Van Alen, Nova Iorque, 1928.